Essa noite sonhei com pintinhos. Sim, pintinhos. Enquanto mexia com ovos, talvez meia dúzia, dois deles nao tinham gema. Tinham pintinhos. Feios. Nojentos.
Como uma coisinha escura, úmeda, morna. Deixei esses dois ovos de lado. Com nojo e receio de algo tao morto e tao vivo. Me afastei. A consciencia pesa.
Sim, ela pesa e todos conhecemos essa sensaçao. Culpa. Nao havia checado se era algo com vida. Algo morto. Ou pior, algo lutando para viver.
Voltei, abri o primeiro ovo, coloquei na mao aquela bolinha de pequenas e molhadas penas. Nao era amarelinho, era escuro, com sangue e proteínas. Era quente e latejava.
Estava meio vivo. Avancei pra longe de meu pessimismo nato de meio vazio e nunca meio cheio e quis salvar a coisa nojenta. Se estava meio vivo era melhor viver.
Escondi a bolinha entre as duas maos, tentava proporcionar calor, soprava algo quente como quem quer limpar com a manga da camisa uma janela. Baforava vapor, soprava vida.
O pintinho latejava, seu pequeno coraçao se movia e eu sentia.
Pouco a pouco sua cabecinha feia se movia, o ajudei a descolar suas asas molhadas, o limpei com as maos sujas de sua propria coisa.
Como era sonho e meu otimismo existia, em pouco tempo o pintinho marrom acinzentado estava de pé. Era hora de preocupar-me com seu irmao. O caso era mais grave. Essa
bolinha havia esperado mais tempo por calor, era mais pequena e muito mais úmeda. Meu otimismo existia. Um coraçao pulsava. Estava meio vivo. Se estava meio vivo
era melhor viver. E também viveu. Essa noite sonhei com pintinhos. Sim, pintinhos. Feios, nojentos. Vivos. Essa manha eu resolvi viver. Meio úmeda, meio feia. Mas
deixei o pessimismo de lado e resolvi escrever.
Ah, poeta,você devia ler a Prece escrita por Borges.Diz assim: [abre aspas] Minha boca pronunciou e pronunciará milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos o padre-nosso, mas só em parte o entendo. Esta manhã, a do dia 1º de julho de 1969, quero intentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Trata-se de uma tarefa que exige uma sinceridade quase sobre-humana. Em primeiro lugar, é evidente que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria uma loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, equivale a pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, ou que já se haja roto. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não diz respeito. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem que não tenho; posso dar esperança que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que apenas entrevejo. Quero ser recordado menos como poeta do que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar, ou de Frost, ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que por vez primeira a ouviu de meus lábios. O mais não importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar a esses desígnios, que não nos serão revelados. Quero morrer de todo; quero morrer com este companheiro, meu corpo.[fecha aspas]
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