segunda-feira, 7 de março de 2011

PRAGAS DA ERA DIGITAL, LISPECTORIANDO TOTAL

Que antes de mais nada fique claro que sou super a favor da democratização da informação e da inclusão digital. ok? Mas tem uma série de pequenas grandes coisas que me deixam de cabelo em pé. Perfil de rede social, olha...te falá viu. As vezes me comove. Biografia de twitter é o que há para as madrugadas insones, recomendo; é uma tal de 'apaixonada pela vida e pelo meu trabalho' que me faz até refletir sobre minhas paixões. Tem também o ser que leva o lance mega ao pé da letra e coloca nome, rg, cpf, profissão e estado civil. Não respeito muito a pessoa dependendo da bio dela, falo logo.
Mas tenho uma mágoa quando o assunto é Clarice Lispector. Me dói no fundo da alma ver um bando de garotinhas apaixonadas pela vida e pelo seu trabalho citando Clarice. Clarice virou status de facebook, é isso? Clarice virou resposta de minazinha rejeitada. Clarice virou troco de mulher mal-amada. Virou pérola de garota descolada. Porra. Podem deixar Clarice em paz? Agora virou febre também Martha Medeiros, coitada. Está também nas mãos de garotas que buscam seus sentimentos no google, que buscam respostas prontas, doces ou ácidas na internet. Garotas que não conseguem construir uma sentença sobre o que sentem, desejam ou abominam.
Sempre citei Clarice, sempre. Não por buscar suas frases prontas, não por isso, mas por uma identificação que veio desde cedo, desde minhas primeiras leituras. Devorava Clarice e grifava suas frases; A Paixão segundo GH me deu inveja. Lia frases que queria ter dito, que queria ter vomitado como ela o fazia. Diferente de quem busca no google a receita para impressionar seus 745 amigos virtuais. Sério, alguém aí deve mesmo curtir Clarice e senti-la como eu sempre senti, se for o caso...se inclua fora dessa e se, (de verdade for o caso) você sabe muito bem do que falo.
Eu não sei se digo uma estupidez tremenda ao afirmar meu desgosto sobre o assunto. Pode ser que eu esteja sendo totalmente reacionária, amarga e resistente. Mas de verdade, prefiro que essas garotas apaixonadas devorem a obra de Clarice, se joguem em Martha Medeiros, se dopem com Bukowski, Cortázar, Pessoa, Neruda...prefiro que tudo isso faça parte delas e que, de vez em quando, uma de suas frases ou versos, brotem de forma natural e absoluta em seus pensamentos e aí sim, esse verso, essa frase se transforme em estado de espírito, em comunhão de sentimentos. Posso ser azeda e do contra, mas não curto e nem quero curtir a pegada 'frases famosas' no google com destino facebook.

Um comentário:

  1. Olha, poeta, não foi ela mesma quem nos recomendou a rendição à vida, sem maiores preocupações com o entendimento? É o que as meninas estão fazendo. Além do mais, já pensou se elas começam a citar Paulo Coelho?

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